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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Zé-povinho e o filho da dona Maria



Quando o filho da dona Maria acabou de passar a fita do que ia rolar para os manos, depois de saírem da quebrada e começassem a falar a real na pista, saiu fora do Capão Redondo e foi trocar uma idéia forte com os manos do Jardim Ângela.

Quando Joãozinho BT, que tava preso no 102º DP de Capão Redondo por ter falado umas verdades para o sub prefeito de Santo Amaro, recebeu a letra do que o filho da dona Maria estava fazendo na quebrada, pediu para os manos que foram visitá-lo sábado de manhã que perguntasse pra ele: “E ai mano, tu é o cara mesmo ou a gente vai ter que esperar outro truta colar na fita pra dar um alívio pra gente?”

O filho da dona Maria devolveu de primeira: “Volta lá e fala pro truta as paradas que tão rolando aqui na quebrada: O pessoal está abrindo o olho, não está tropeçando por aí. Os que estavam bichados estão ficando à pampa, quem não estava ouvindo o que a gente dizia está se ligando no esquema. Até aqueles manos que estavam quase mortos, com os dias contados, estão nascendo de novo e – melhor de tudo: Todo o povo da periferia está se ligando que nosso papo é reto! E é bom para quem ouvir se ligar que eu sou o cara!"

Quando eles deram linha na pipa, o filho da dona Maria chamou a galera na chincha a respeito do Joãozinho. “Vocês saíram de suas gomas pra ver o que aqui? Fala ai! Vieram ver um playboy? Playboy vocês só vão ver lá nos Jardins! Fala ai mano!!! Vieram aqui pra ver um MC cantar Rap? Pois ele é muito mais que um MC! Tá ligado naquela parada que picharam na entrada da favela que dizia: “Se liga ai mano! To mandando na frente um truta que vai deixar adiantar minha parada?” Se liga então Zé-povinho! Dessa galera aí que nasceu da mulherada por aqui, ninguém foi mais cabuloso que o Joãozinho BT, mas mesmo assim ele ainda é café pequeno perto da galera lá de cima"!

“Desde mili duk, quando Joãozinho BT ainda tava na área até agora, pra poder subir só se fosse na porrada, e eram só os alemães que tinham a moral. Pois todos os MC’s deram a letra até o João. E, se vocês querem se ligar no movimento, era ele mesmo o Aderbal que falaram que iria colar na goma. Se quiser se ligar se liga na parada!”

"Olha a cara de vocês! Cambada de Zé-povinho! Vocês são do mesmo naipe da molecada que fica de bobeira o dia inteiro na porta do colégio e aloprando quem passa na rua: “Pô cara, tocâmos pagode e vocês não dançaram, falamos a fita sinistra que rolou ano passado e vocês nem se ligaram! Nesta veio Joãozinho BT, que só comia mata boy e não parava no boteco pra tomar uns gorós e vocês falaram que ele era doidão. Veio eu aqui, o filho da dona Maria, que batia uma chepa legal e tomava breja com a galera e vocês vem querer queimar minha fita dizendo: “Ó lá o draga, cachaceiro que só anda com tranqueira"!

Aê Zé-povinho, fica na moral: A gente tá ligado no movimento e nossa fita tá limpa!


Bíblia dos Manos, Mateus 11.1-19

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Ninguém fala da Maria pô!!!

“O anjo, aproximando-se dela, disse: "Alegre-se, agraciada! O Senhor está com você!" Maria ficou perturbada com essas palavras, pensando no que poderia significar esta saudação. Mas o anjo lhe disse: "Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!” - Lucas 1:28-30

“Respondeu Maria: "Sou serva do Senhor; que aconteça comigo conforme a tua palavra". Então o anjo a deixou”. - Lucas 1:38

“Naqueles dias, Maria preparou-se e foi depressa para uma cidade da região montanhosa da Judéia, onde entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. Em alta voz exclamou: "Bendita é você entre as mulheres, e bendito é o filho que você dará à luz! Mas por que sou tão agraciada, ao ponto de me visitar a mãe do meu Senhor? Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. Feliz é aquela que creu que se cumprirá aquilo que o Senhor lhe disse!"
- Lucas 1:39-45

“Então disse Maria: "Minha alma engrandece ao Senhor e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, pois atentou para a humildade da sua serva. De agora em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, pois o Poderoso fez grandes coisas em meu favor; santo é o seu nome. A sua misericórdia estende-se aos que o temem, de geração em geração. Ele realizou poderosos feitos com seu braço; dispersou os que são soberbos no mais íntimo do coração. - Lucas 1:46-51

“Quando os anjos os deixaram e foram para os céus, os pastores disseram uns aos outros: "Vamos a Belém, e vejamos isso que aconteceu, e que o Senhor nos deu a conhecer" Então correram para lá e encontraram Maria e José, e o bebê deitado na manjedoura. Depois de o verem, contaram a todos o que lhes fora dito a respeito daquele menino, e todos os que ouviram o que os pastores diziam ficaram admirados. Maria, porém, guardava todas essas coisas e sobre elas refletia em seu coração”.Lucas 2:15-19

“Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão, que era justo e piedoso, e que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Fora-lhe revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, ele foi ao templo. Quando os pais trouxeram o menino Jesus para lhe fazerem o que requeria o costume da Lei, Simeão o tomou nos braços e louvou a Deus, dizendo: "Ó Soberano, como prometeste, agora podes despedir em paz o teu servo. Pois os meus olhos já viram a tua salvação que preparaste à vista de todos os povos: luz para revelação aos gentios e para a glória de Israel, teu povo". O pai e a mãe do menino estavam admirados com o que fora dito a respeito dele.”Lucas 2:25-33

“Todos os anos seus pais iam a Jerusalém para a festa da Páscoa. Quando ele completou doze anos de idade, eles subiram à festa, conforme o costume. Terminada a festa, voltando seus pais para casa, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que eles percebessem. Pensando que ele estava entre os companheiros de viagem, caminharam o dia todo. Então começaram a procurá-lo entre os seus parentes e conhecidos. Não o encontrando, voltaram a Jerusalém para procurá-lo. Depois de três dias o encontraram no templo, sentado entre os mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas. Todos os que o ouviam ficavam maravilhados com o seu entendimento e com as suas respostas. Quando seus pais o viram, ficaram perplexos. Sua mãe lhe disse: "Filho, por que você nos fez isto? Seu pai e eu estávamos aflitos, à sua procura". Ele perguntou: "Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai?" Mas eles não compreenderam o que lhes dizia. Então foi com eles para Nazaré, e era-lhes obediente. Sua mãe, porém, guardava todas essas coisas em seu coração.Lucas 2:41.51

Perdoem-me pelo excesso de citações, pois ainda vem um pouco de observações pessoais pela frente...

Fiz esta coletânea de versículos do Evangelho segundo Lucas depois de um insight que tive ontem à noite. Em todos eles, algo me chamou a atenção: A admiração, humildade e a sabedoria de Maria, injustamente não muito falada entre os “crentes”, devido ao preconceito gerado pela posição católica em relação à ela.

Maria ficou perturbada com a saudação do anjo enviado pelo Senhor para anunciar o que havia de acontecer. "Como assim, agraciada do Senhor?” ela deve ter pensado. Acho também que ela ficou intrigada com outra coisa que o anjo lhe disse: “O Senhor está com você”. Penso que ela pensou algo como “eu, uma moça tão simples, "tão virgem", levando minha vidinha bucolicamente aqui neste finzinho de mundo, sou notada pelo Altíssimo?”

Anyway, Maria era muito temente a Deus. Ao receber a notícia que levaria em seu ventre o Deus encarnado ficou surpresa. Por ser virgem e pelo tamanho de sua missão. Mas recebeu a notícia em total submissão (estar na mesma missão com, e não no sentido negativo, normalmente utilizado para a palavra) à vontade do Senhor. Ao fazer isso, entendeu que aquilo era muito maior do que ela jamais seria capaz de sonhar. Não utilizou de falsa modéstia, hipocrisia religiosa. Ao contrário, glorificou a Deus e entendeu que dali em diante sua vida nunca mais seria a mesma, ainda mais depois de visitar Isabel grávida, vê-la recebendo o Espírito Santo e profetizando, além de testemunhar "Joãozinho Batista" no ventre de Isabel se mexer agitadamente, cheio de alegria por estar “frente a frente” (ventre a ventre define melhor) com Aquele a quem ele iria preparar caminho.

Ao se dirigir à Belém, cidade onde deveriam comparecer para realização do senso, a criança nasceu. Lindo lindo, patatí-patatá, com os pastores visitarando o jovem casal e sua criança, admirados com tudo o que ali estava acontecendo. Maria olhou tudo aquilo e notou que o que ela já tinha imaginado antes era na verdade muito maior.

Neste processo, Maria passou a agir cada vez mais sabiamente, guardando cada acontecimento em seu coração e refletindo neles, como quê montando um quebra-cabeça.

A fim de cumprirem a Lei, levaram o menino para ser circuncidado. Ao chegarem ao templo, encontraram Simeão, temente a Deus e cheio do Espírito, homem este que recebera do Senhor a promessa de que não morreria sem antes ver o Prometido de Israel. Ao tomar o menino em suas mãos, louvou a Deus e deu por encerrado seus dias sobre a terra. Ao ouvirem Simeão falar, Maria e seu marido ficaram admirados com tudo o que ele disse a respeito da criança.

O menino cresceu e passou a cada vez mais ter noção de sua missão, seu ministério. Estando eles em Jerusalém para a festa da Páscoa, Jesus – já com 12 anos – não voltou com aqueles que foram com ele. Ao contrário, ficou entre os mestres, perguntando, ouvindo tudo o que eles falavam. Estes também se admiravam com o entendimento e sabedoria daquele jovem adolescente. Quando seus pais o encontraram, três dias depois, Ele disse que não era para eles ficarem apreensivos, mas que entendessem que Ele deveria estar na casa de seu Pai.

Na hora não entenderam, mas Maria guardava tudo em seu coração.

Perdoem-me por ter me alongado tanto na repetição do que já está escrito. É que eu intentava enfatizar esta postura de Maria, esta relação dela com Deus Pai e com o filho gerado em seu ventre, teoricamente "seu" e a montagem do quadro total que significava ela ser o canal utilizado por Deus para que Seu Filho se tornasse carne aqui na terra.

Não escrevi mais sobre outros trechos, como o que Maria informa à Jesus que havia acabado o vinho nas bodas de casamento em Caná da Galiléia e leva uma “patada” (João 2:3-5), ou quando ela e seus outros filhos, irmãos de Jesus, aparecem quando Jesus estava com uma grande multidão, vinda de várias cidades para ouvi-lo e Ele é avisado sobre suas presenças. Ali também Ele aparentemente é “grosseiro” em sua resposta (Lucas 8:19-21).

Nestes textos, tenho para mim que Maria já havia amadurecido muito e já tinha desenvolvido a percepção de que Aquele que ela havia carregado em seu ventre “não era filho dela, e sim de seu Deus”. Tinha o entendimento de que na vida dela o papel estava cumprido. Mais adiante, encontramos com nossa querida Maria aos pés da Cruz, vendo seu Deus entregando sua vida pelo pecado de toda a humanidade.

Assim como Jesus, penso que ela também repetiu as derradeiras palavras que Ele pronunciou antes de entregar seu Espírito ao Pai: “Está consumado”...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

O Filho da Dona Maria e o Banho de Chafariz



Era uma vez um cara que se chamava João. Muita gente achava que ele era um mendigo mas não era não. O João é o filho da dona Izabel, aquela que mora lá no Jardim Ângela. É que ele curtia andar todo esfarrapado e comer churrasco grego com suco grátis lá no Centro. Por isso a fama...

Como era verão, João gostava de ficar lá pela Praça da Sé, gritando feito louco de dentro do chafariz, dizendo que todo mundo estava errado, e que tinham que se arrepender e mudar de vida.

Alguns paravam para ouvi-lo, outros não. Com o calorzão que tava fazendo e as palavras de João esquentavam as orelhas de seus ouvintes, os que paravam para ouvi-lo acabavam ficando tanto tempo lá que decidiam tomar um banho com ele. E João gostava muito de mergulhar com o pessoal no chafariz, ficava o dia inteiro lá exatamente para isso.

Um grupo de pastores neo-pentecostais estavam passando por lá e pararam para ouvir aquele louco falando. Como começaram a sentir muito calor, também ficaram com vontade de dar um mergulho com João, mas este disse:

“Vaza daqui suas cobras! Estão com calor? Vão tomar banho de água benta do Rio Jordão que vocês vendem nas suas igrejas, aqui é só para quem realmente não tem opção! Se apruma, toma linha e parem de se achar filhinhos do ‘apóstolo’! O Pai (sempre que eu falo isso me lembro do Hinri Cristo, risos...) tá de saco cheio de vocês"!

Apontando para o Marco Zero João disse: “é mais fácil Ele transformar aquela pedra ali em um filho do que vocês, seus vendilhões! Deus está a ponto de passar o machado em vocês, pois seus frutos são podres!"

João tava virado num Jirai e continuou sentando a ripa: "Eu tô aqui na boa dando banho no povão, que realmente sabe que está sujo e querem se livrar da catinga, mas vem um aí que vai passar todo mundo pelo fogo! Este é o cara, e eu não mereço nem tocar em suas Havaianas! Ele virá e trará um monte de garis com Ele, daqueles mesmos que o Boris Casoy ridicularizou na TV, vão varrer toda a Praça da Sé e recolher o lixo. Se o conheço bem, vai levar todos vocês e tacar fogo em suas próprias fogueiras santas, seus hipócritas"!

Só foi João falar isso e pá! Do nada, o filho da dona Maria chegou. Veio de busão, lá do Capão Redondo e estava suadão. Ouviu-o por um tempo e pediu ao João para dar um mergulho, mas João respondeu: “Mano! Eu é que tenho que ser lavado por você e você vem até mim?” O filho da dona Maria respondeu: “Cara, deixa quieto, vamos fazer deste jeito mesmo, aí eu não queimo tua fita”. João, constrangido, concordou e fez como Ele havia pedido.

João mergulhou o filho da dona Maria no chafariz e o tirou de dentro dágua. Na mesma hora, um pombo veio voando na direção dEle. Todo mundo pensou: "Xiiii, o cara é zicado, acabou de tomar banho e o pombo vai fazer titica na cabeça dele"... Nisso, aconteceu um barato louco: Os céus se abriram e uma voz disse:

"ESTE É O CARA, SE LIGA NO QUE ELE FALA!"

Mano, todo mundo ouviu e ficou arrepiado. Este filho da dona Maria dever ser assim com o cara lá de cima, pensaram eles...

terça-feira, 27 de abril de 2010

O filho da dona Maria e o mendigo podrão...


Praça da Sé, próximo à entrada do metrô. Não sei precisar a hora, mas deve ser pouco mais de meio-dia. O sol está escaldante. Vários mendigos sentados, bebendo, fumando e conversando. Alguns gritam, outros discutem, outro tanto lavam suas roupas nas águas sujas do antigo chafariz. Na saída de ar do metrô vários cobertores e peças de roupas amarradas às grades eram agitadas pelo vento criado com a passagem do trem subterrâneo. Funcionava como um secador de roupas.

Junto aos mendigos encontram-se algumas pessoas doentes, fazendo hora extra na terra para alguns. Um homem coxo, um cego, um paralítico. Outro deitado sobre um pedaço de papelão. Um leproso raspava a ferida de sua perna com um pedaço de cerâmica. O cheiro intenso de urina, suor e fezes fazia com que todos que desciam do metrô e passassem próximos àqueles mortos-vivos desviassem seus passos, tapando o nariz, tendo ânsia de vômito, desejando que aquele pedaço do mundo fosse engolido com todas aquelas criaturas bestializadas pelo sofrimento, abandono e dor.

Um casal de turistas parou pra tirar um foto daquela cena dantesca. Um dos mendigos se irritou e começou a xingá-los. Com medo, eles partiram apressados. Um trombadinha mirou a câmera e sinalizou para outro mais a frente. De onde eu estava não pude ver direito, mas houve grande correria e gritos de pega ladrão! Já era, rodou, perdeu...

Todos ali tinham em comum alguma desgraça pessoal que os levava àquele lugar. Nenhum outro local era tão público e ao mesmo tempo tão particular para aqueles mendigos do que aquela região da Sé. Os policiais faziam vistas grossas às barbáries que viam e ouviam daquela pequena comunidade de párias. Estando ali ao menos eram menos mendigos espalhados pelo centro. Mais cedo ou mais tarde morreriam ali, à espera de um milagre.

Este bando de maltrapilhos ficavam ali panguando, apenas juntando moscas em seus corpos e fedendo, crendo numa lenda urbana que dizia que quando a administração do metrô ligava o chafariz o primeiro que pulasse na água era milagrosamente curado de suas enfermidades. Dizem que foi um pessoal de uma igreja neo-pentecostal aí que tinha divulgado esta história, ninguém tinha certeza...

Em meio a este caos aparece ele, o filho da dona Maria. Tinha descido na Estação Sé do metrô e ia com muita pressa em direção ao Largo São Francisco, ponto final do Jardim Ângela. O crédito de seu bilhete único estava no limite e tinha que pegar seu ônibus rapidinho para não perder a passagem. Quando porém ele passou seus olhos sobre aquela pequena comunidade próximo ao chafariz, teve sua atenção roubada para o homem deitado no papelão.

Sem saber exatamente a razão (em seu íntimo algo como compaixão) se dirigiu a ele e perguntou:

-E ai mano, firmeza?

-É, mais ou menos. Tô de boa...

-Não é o que eu vejo. Você tá podrão cara. Tô na correria mas algo me incomoda: Você tá aqui acreditando no que o pessoal daquela igreja falou? Você quer ser curado cara?

-É, mais ou menos. Dizem que aqui posso ser curado, mas eu não consigo entrar na água em tempo.

O filho da dona Maria o olhou nos olhos, opacos, sem vida, e perguntou novamente:

-Rapá, eu to te perguntando se você quer ser curado!

Silencio. O mendigo não conseguia falar nada, absorto em seu mundo paralelo. Sem tempo a perder, o filho da dona Maria disse ao moribundo:

-Véio, esta história do banho de chafariz é a mó roubada. Na verdade você acredita nas coisas erradas, e vejo que isso faz muito tempo. Acredita até que não consegue mais sair daí, se entregou, desistiu de viver. Vamos fazer o seguinte: Eu te ajudo a levantar. Vamos! Levante! Jogue este papelão fora e vai cuidar de sua vida!

Vida. Que vida tinha aquele homem? Ali estava bom, estava na zona de conforto, mesmo em meio ao caos. Acostumado ao sofrimento desde que se deu por gente, ali era um bom lugar para estar. De vez em quando passava um pessoal distribuindo sopa. Não era molestado por ninguém (na verdade tinham nojo dele). Mesmo sem entender direito o que se passava, o homem sentiu algo dentro dele maior que seu comodismo, se espreguiçou e se levantou. Todos os outros mendigos ficaram boquiabertos. Aquele homem estava ali desde que fundaram o metrô, quase quatro décadas atrás, e nunca tinham o visto andar!

Neste meio tempo o filho da dona Maria vazou. Tinha só mais dez minutos para usar a passagem do bilhete único e – se ficasse ali – todo o resto do pessoal ia embaçar na dele.

Muitos perguntaram para o mendigo sem nome o que tinha acontecido. Ele não soube explicar. Não sabia nem o nome do filho da dona Maria....

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O filho da dona Maria e o churrasco na laje


Vou contar um causo que aconteceu a muitos anos atrás com um brother meu, o filho da dona Maria. Antes porém, deixe eu apresentá-lo.

Ele nasceu num barraco na periferia de uma cidade qualquer. Cresceu quase que anonimamente, aprendeu a trabalhar com o Zezinho, seu pai e se tornou um jovem super bacana, apesar das dificuldades.

Desde pequeno mostrou ter uma inteligência acima do normal. Todos que o conheciam ficavam impressionados com seu QI acima da média mas, por incrível que pareça, ele não era um babaca não. Ele era o que se chama em inglês de “fun to be with”, algo como “legal de se estar com”. Gente de QI alto normalmente tem muita dificuldade em se relacionar, mas ele era um cara que tinha uma facilidade em atrair as pessoas como poucos. Fazia amizade fácil, todo mundo gostava de segui-lo. Do mais simples ao mais culto, ele tratava todos da mesma forma. Só não tinha muita paciência com os hipócritas, que diziam uma coisa mas viviam outra.

Ele costumava andar por aí, ajudando os outros. Um dia encontrou um cara que estava com problemas para enxergar. Arrumou seus óculos sem cobrar nada e ele voltou a ver normalmente. Outro estava com tendinite e ele deu um jeito de estender sua mão de forma que não sentisse mais dor. Trombou com um carinha que tava meio nervoso, quebrando tudo que via pela frente, trocou uma idéia com ele e descobriu que tinha uns elementos que estavam infernizando vida dele. Foi lá, intimou os caras e eles pararam de pentelhar com o rapaz. Caíram fora, literalmente. (Na boa: Se eu for falar tudo o que o filho da dona Maria já fez de bom não vai caber neste post não...)

Além de fazer, ele falava muitas coisas legais, mas os hipócritas estavam com muita inveja de tudo o que ele estava dizendo. Achavam que ele estava se achando ‘o cara’, o ‘filhinho do papai’ e estavam querendo enquadrar ele. Mas isso eu falo depois. Comecei a escrever pensando numa balada muito louca que o filho da dona Maria foi. Quem contou esta fita foi o João. Era um casamento, a laje lotada de gente comendo churrasco e tomando cerveja. Muito animados, não se deram conta que nem tudo estava bem. De repente estoura a bomba: Acabou a cerveja!

O que fazer? Dona Maria tava lá também, e chamou seu filho para avisar que não tinha mais cerveja. Ele estava trocando idéia com seus amigos e não gostou muito de sua mãe vir falar aquilo pra ele. Além do mais, ele não andava com dinheiro do bolso. De qualquer maneira ele pediu que trouxessem uma piscina de plástico que estava vazia no canto, enchessem de água e dessem um gole. Acharam que ele tava de brincadeira mas resolveram encarar. Afinal, tava todo mundo muito bêbado.

Quando provaram ninguém acreditou: A água tinha se transformado em Bohêmia!!! (alguns discutem e dizem que ela era tão boa que deveria ser Heineken, Guiness ou outra marca gringa mas, tudo indica, era Bohêmia mesmo).

Alguém perguntou por qual razão passaram o casamento inteiro tomando Crystal e Bavária e só no fim soltaram a boa. Mas tudo bem, o importante é que tinha cerveja pra todo mundo, e nem precisaram fazer vaquinha pra comprar. O interessante é que ninguém no casamento veio reclamar que faltou refrigerante. Costumavam falar que fazia muito mal à saúde, e o filho da dona Maria sabia disso, era um cara legal.