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segunda-feira, 22 de agosto de 2011

É melhor ser feliz do que estar certo


...Como saber , no entanto, se um ferimento fatal foi causado deliberada ou acidentalmente? O livro de Deuteronômio (Deut. 4:42) diz que se a pessoa que sofreu o ferimento não tiver hostilizado a outra nos dois ou três dias anteriores, pode-se assumir que foi um acidente.

Comentando este versículo, os sábios do Talmúd oferecem um enfoque psicológico fascinante. Dizem que a duração de uma querela, na vida normal, é de dois ou três dias. Se uma pessoa o fere ou o ofende, você tem o ‘direito’ de ficar zangado com ela durante este tempo (estamos aqui falando de discussões rotineiras e de mal entendidos, não de ofensas maiores). Se os sentimentos de amargura se estendem pelo quarto dia é porque você está querendo prolongá-los. Você está nutrindo a mágoa, mantendo-a artificialmente, em vez de deixá-la morrer de morte natural.

Deve haver alguma satisfação emocional em colocar-se no papel de vítima, mas essa é uma má idéia por duas razões. Primeiro, afasta você da pessoa de quem você deveria estar perto (E se, se tornar um hábito, como freqüentemente acontece, afasta você de muitas pessoas de quem você deveria estar perto). E, segundo, você se acostuma a se ver no papel de vítima, desamparada, passiva, sentindo-se a presa dos outros. Vale a pena esse sentimento vazio de superioridade moral que o faz ser visto dessa maneira?

O conselheiro pastoral David Norris diz o seguinte: “O perdão envolve um esvaziamento não só da energia negativa inerente à ofensa, mas também dos significados que damos a ela, como resultado dessa e de outras ofensas semelhantes pela vida afora”. A “energia negativa” a que Norris se refere é a sensação de amargura e ressentimento que carregamos conosco quando nos lembramos de como alguém nos magoou.

Quando tentei aconselhar uma divorciada que ainda fervia de raiva ao falar do marido que a deixara há anos por outra mulher, e que atrasava o pagamento da pensão das crianças, ela me perguntou, “Como pode pretender que eu lhe perdoe, depois de tudo o que ele fez a mim e às crianças?", eu lhe respondi: "Não estou pedindo que o perdoe por achar que o que ele fez não foi assim tão terrível; foi, sim, terrível. Estou sugerindo que você o perdoe porque ele não merece ter este poder de transformar você numa pessoa amarga e ressentida. Quando ele se foi, perdeu o direito de ocupar a sua vida e a sua mente da maneira como você está deixando que ele faça. Que você tenha raiva dele não incomoda a ele, mas fere a você. Está transformando-a em alguém que você não quer realmente ser. Afrouxe essa raiva, não por causa dele – provavelmente ele não o merece – mas por sua causa, de forma que você possa deixar emergir o seu verdadeiro eu”. E quando a energia negativa nos distancia de alguém com quem queremos estar juntos – um marido ou uma mulher, um irmão ou uma irmã, um amigo chegado que nos desapontou – é muito mais importante que aprendamos a descarregá-la.

Pelos “significados que a ela damos”, Norris se refere aos sentimentos de não valer nada, que nos vêm quando alguém que amamos nos maltratou ou nos deixou tristes. Essas ofensas nos tocam tão profundamente não apenas porque estão erradas intrínseca ou extrinsecamente, mas porque elas nos atingem onde somos mais vulneráveis. Tocam nosso medo de que, afinal de contas, não sejamos assim tão merecedores de amor. Quanto mais nutrirmos uma mágoa, nos dizendo: “Aquela pessoa não se importa com meus sentimentos”, mais repetimos a mensagem em nossa mente: “Meus sentimentos não devem ter importância”. Quando perdoamos, quando chegamos a encarar o que alguém nos fez não como resultado de maldade ou de pouco caso com nossos sentimentos, mas como o resultado da fraqueza, da impaciência e da imperfeição humanas, não apenas libertamos o outro do papel de vilão; nos libertamos do papel de vítima.

A colunista Linda Weltner, do Boston Globe, conta uma história ilustrativa. Ela recorda ter se sentado num parque para olhar as crianças brincando. Duas crianças começaram a discutir e uma disse à outra; “Eu te odeio, nunca mais vou brincar com você!” Por alguns minutos elas brincaram separadamente e logo estavam de volta, partilhando os brinquedos uma com a outra. A Sra. Weltner comentou com a outra mãe, “Como as crianças podem fazer isso? Como conseguem estar no auge da fúria uma com a outra num minuto e no minuto seguinte serem as melhores amigas?” A outra mãe responde, “É fácil: Elas preferem ser felizes a ter razão”.



Trecho do capítulo cinco do livro "O Quanto é Preciso ser Bom?" - Rabino Harold S. Kushner - págs 91, 92 e 93 - Editora Exodus

terça-feira, 22 de março de 2011

Mente e Espírito

Wolfhart Pannenberg, o jovem professor de Teologia Sistemática de Munique, escreveu algo similar em seu livro "Basic Questions in Theology" ("Questões Teológicas Fundamentais"):

"Uma mensagem não convincente, como alternativa, não é capaz de alcançar o poder de convencer simplesmente apelando ao Espírito Santo... A argumentação e a operação do Espírito Santo não são mutualmente exclusivas. Ao confiar no Espírito, Paulo de forma alguma dispensou-se de pensar e argumentar".


Assim, pois, em nossa proclamação do evangelho, temos que nos dirigir à pessoa toda (mente, coração e vontade) com o evangelho todo (Cristo encarnado, crucificado, ressurreto, soberano, sua segunda vinda e muito mais ainda). Deveremos argumentar com sua mente e apelar fervorosamente a seu coração para que mova a sua vontade, estando nossa confiança depositada no Espírito Santo do começo ao fim.

Não nos é dada a liberdade de apresentar Cristo parcialmente (como homem mas não como Deus, sua vida e não sua morte, sua cruz mas não sua ressurreição, como Salvador mas não como Senhor).

Nem ainda temos o direito de pedir uma resposta parcial (da mente mas não do coração, do coração mas não da mente ou da mente e do coração mas não da vontade). Não. Nosso objetivo é ganhar o homem todo para o Cristo total e, para isso, é necessário o completo consentimento de sua mente, coração e vontade.

Oro insistentemente que Deus levante hoje uma nova geração de apologistas cristãos, pessoas que comuniquem a mensagem cristã, tendo uma absoluta fidelidade ao evangelho bíblico, e uma inabalável confiança no poder do Espírito, combinada com um entendimento profundo e sensível às alternativas contemporâneas do evangelho; pessoas que se relacionem com as demais com vivacidade, ardor, autoridade e propriedade; pessoas que façam uso de suas mentes para ganharem outras mentes para Cristo.

John R. W. Stott
Crer é Também Pensar - ABU Editora - págs. 50/51

sexta-feira, 4 de março de 2011

Meme (!?) Literário


Well,

Fui intimado a participar deste Meme (que raio é isso?) Literário pelo arcanjo Wendel. Na verdade já tinha visto este treco no blog da Bispa Rê mas, como ultimamente ando meio lesado, não tinha entendido que isso é uma corrente que não pode ser quebrada sem que graves conseqüências caiam sobre minha cabeça careca. Então vamos lá!

1 – Existe um livro que você leria várias vezes sem se cansar? Qual?

Poxa, esta pergunta é sacanagem... Eu leio tanto que chega uma hora que, depois de um determinado tempo após ter findado a leitura de um livro, alguém me pergunta como é ou o que achei do livro “A” ou o “B” e simplesmente não consigo mais definir. Começa a fazer parte de mim, parece que este livro se dilui dentro do meu universo. Acredito até que muito do que escrevo na verdade é uma miscelânea de tudo o que já li, atrelado às minhas experiências pessoais.

Para se ter uma idéia, nos últimos 20 dias devorei a autobiografia do Lobão, “50 Anos a Mil”, umas 600 páginas, “Velhos Marinheiros” do Jorge Amado e agora estou lendo um livro que comprei por R$ 4,90, apenas para trocar uma nota de 50 reais, o “Presente do Mar” de Anne Morrow Lindbergh, Editora Sextante. Paralela à leitura "extra-oficial", estou na minha quarta leitura da Bíblia de capa a capa, a segunda vez em inglês.

Falei, falei mas ainda não respondi a pergunta. Acredito que fica difícil falar apenas um livro, pois vários eu costumo reler sem me cansar. Serei injusto com todos os outros “amigos livros”, mas o que me vem a mente agora é O Segredo Judaico de Resolução de Problemas do Rabino Milton Bonder, Editora Imago. Este livro foi indicado por um cliente da loja que eu gerenciava, um judeu, professor de Marketing na ESPM, meio boiola (vivia dando em cima de mim). Este livro basicamente disseca a mente do povo judaico, mostrando como eles aprenderam a sobreviver neste mundo hostil, veladamente (nem tão velado assim) anti-semita, desenvolvendo uma rapidez de raciocínio capaz de livrá-los das mais diversas formas de opressão. É deste livro um caso que certa vez postei aqui no meu blog, um texto muito louco, onde misturei diversas situações “nada a ver” para passar uma idéia. Depois dá uma clicada para ver o “causo”.


2 – Se você pudesse escolher um livro apenas para ler o resto da vida qual seria?

Pode parecer lugar comum, coisa de crente, mas a Bíblia seria este livro. Como vários antes de mim já escreveram, a Bíblia é o único livro que você pode ler e reler zilhões de vezes e sempre algo novo se revelará a você. Lógico que tem trechos chatézimos como aquelas longas descrições de como deveria ser cada parte do templo ou as genealogias sem fim mas, não sei explicar a razão de maneira lógica, sei que devo ler tudo com o mesmo espírito. Quem sabe uma hora não virá a revelação, o “insight” para decifrar tudo o que estes textos aparentemente áridos e indigestos tem a dizer?

3 – Indique três dos seus livros preferidos.

Três livros é muito pouco mas vou tentar engabelar vocês:

1) Tudo o que foi escrito por Fiódor Dostoievsky. Tudo! Adoro andar pelas ruas de São Petersburgo do século 19 através de seus romances. Adoro me sentir dentro da mente de seus personagens, lutar suas lutas, delirar em suas febres, sofrer suas angústias. Nunca vi ninguém colocar em palavras de maneira tão sublime, tão real, o que se passa na alma do homem. Destes livros, o último que li, ano passado, foi Crime e Castigo. Simplesmente sensacional!

2) Todos os livros que li de J.R.R. Tolkien: O Silmarillion, que trata da “gênese” da Terra Média, O Hobbit, que fala basicamente sobre como nosso querido Bilbo Bolseiro achou/afanou o Um Anel de Smeagol e a trilogia O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei). É de tirar o fôlego. Após a leitura, até fiquei um pouco frustrado com a versão cinematográfica. Se fossem fazer o filme sem adaptar e cortar alguns fatos importantíssimos dos livros, acredito que deveria ser lançado ao menos mais 6 horas de gravações para ser mais fiel ao que está escrito.

3) Agora fica difícil! Consegui colocar uma porrada de livros por autores mas agora tenho que falar de apenas um para não ficar feio. Creio que um dos livros que mais me impactou nos últimos tempos foi “A Metamorfose” de Franz Kafka, pois li este livro numa época muito próxima à morte de minha mãe, que ficou 5 longos e sofridos meses em coma. Traçar um paralelo entre o personagem Gregor Samsa que – do nada – dormiu gente e acordou transformado em uma asquerosa barata com o derrame de minha mãe foi inevitável. Também escrevi a respeito por aqui...

Gostaria de falar sobre mais alguns bons livros que li, como “Walk On – A Jornada Espiritual do U2” de Steve Stockman, “Mais que um Carpinteiro” de Josh McDowell, “O Jesus que Eu Nunca Conheci” de Philip Yancey, “A Cruz de Cristo” e “Crer é Também Pensar” de John Stott, “Evangelho Puro e Simples” de C.S. Lewis, “É Proibido. O Que a Bíblia Permite e a Igreja Proíbe” e "Artesãos De Uma Nova História" de meu pastorzinho preferido, Ricardo Gondim, "Sal Fora do Saleiro" e "Confissões de um Pastor" do grande Caio Fábio, "A Cabana" de Willian P. Young... A lista é longa!

Para não quebrar a corrente e sofrer as maldições malígnas, seguem 5 amigos blogueiros que gostaria que participassem desta bagaça:

> Ricardo Mamedes do blog A Verdade Liberta, O Erro Condena

> Vanderley Borkoski do blog Príncipe da Paz

> Marcos do blog Liberdade ao Pensar

> Cesar Cardoso do blog Patavina's

> Tiago Scala do blog Outside the Church

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Deus não é justo


Todo ser humano, em uma ou outra ocasião, faz as seguintes perguntas de sessenta milhões de dólares:

“Se Deus é um Deus de amor, por que há tanto sofrimento no mundo?”

“Por que os perversos parecem prosperar?”

“Por que coisas horríveis acontecem com pessoas excelentes?”

“Por que a vida tem de ser tão dura?”

“Não existe um meio mais fácil de crescer?”

“O sofrimento tem algum significado?"


Não existem respostas prontas para estas perguntas universais. De fato, volumes tem sido escritos num esforço para responder a cada pergunta especificamente. Muitos desses livros ajudam, proporcionando algum consolo aos que se acham em meio a difíceis provações.

Não tentarei oferecer soluções genéricas a problemas que deixaram os pensadores perplexos durante séculos. Em seu livreto “Why Does God Allow Suffering?” (Por Que Deus Permite o Sofrimento?” – St. Louis: Lutheran Laymen’s League, 1965, pg. 5), Paul Malte explica:

“A própria Bíblia jamais ofereceu respostas muito fáceis para o sofrimento ou aos sofredores. Mesmo Jó, o livro clássico sobre o sofrimento, o mal nunca chega a ser justificado. Jó porém, aprende a viver com o sofrimento – e com o Deus Criador. No mais fundo da alma – e não em sua mente – Jó descobre a paz que transcende todo entendimento humano. Jesus – que afirma ser o representante de Deus entre os homens – jamais desata o problema intelectual da bondade de Deus e do seu poder. Ele simplesmente age para demonstrar a bondade do Pai e seu poder canalizado pessoalmente para os homens.

Jesus não cura todos os leprosos da Palestina, expulsa todos os espíritos imundos, conserta todos os casamentos. Onde e quando pode, Ele cura e ajuda. Ele dá às pessoas a atitude interior, a coragem e a alegria para tratar com o sofrimento. Ele nada faz para adiar sua própria morte e se torna vítima da hostilidade humana. Ele sofre tanto a angústia da morte física como o inferno da alienação de Deus. Ao sofrer conosco Ele sofre por nós. Ele sofre para que nosso sofrimento possa ser transformado em triunfo.

Os cristãos não tem respostas preparadas de antemão para o sofrimento, não existem dez princípios fáceis para os felizes sofredores. Eles só têm atitudes para enfrentá-lo, meios de vencê-los, perspectivas para transcendê-lo.”

Trecho do livro “Deus Não é Justo” – Joel A. Freeman – Editora e Distribuidora Candeia – 1º edição (1991) – pgs. 19/20

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Será que somos Cristãos ?


Os evangélicos crêem que foram salvos pela graça, por meio da fé (Efésios 2.8-9), mas então acrescentam uma renúncia, feita por homens, de que você tem de trabalhar o mais duro que puder para corresponder a padrões de comportamento de classe média. Isso parece oposto ao que o Evangelho diz, onde, entre os muitos ensinos de Jesus sobre o serviço, os últimos se tornam os primeiros. É um Reino às avessas, que contraria o que parece ser a ordem natural dos primeiros e dos melhores vencendo. A igreja, portanto, deveria se opor radicalmente a essa síndrome do sucesso.

Isso parece ter afetado Bono. Outra estranha sutileza sobre a igreja é a de que ela possui qualidades especificas que indicam se você é ou não um “acrobata”. Estas qualidades, normalmente, tem a ver com não falar palavrão, não fumar e não beber. Por alguma razão, há alguns ensinos bíblicos que não são – mas talvez devessem ser – muito valorizados. Por exemplo: avareza materialista, discriminação preconceituosa, a opressão às mulheres ou a negligência, quanto à justiça social. Talvez você possa ignorar muitos dos discursos à ação de Cristo e dos profetas, e porque você seja abstêmio, menos eloqüente em sua linguagem e freqüente a igreja duas vezes por semana, seja declarado espiritualmente saudável.

Bono fala da graça como sendo o grande atrativo do Cristianismo. Ele então diz que gostaria de ser um cristão, mas não poderia jamais estar à altura, ou que é um mau exemplo para o Cristianismo. Ou ele está tentando evitar que a imprensa o rotule ou está enganado sobre o que seja um cristão. Assim como seus críticos, ele deixa de seguir a Jesus de modo comprometido e radical quando faz coisas como dar uma enorme quantidade de seu tempo ao Jubileu 2000. Ele adiou compromissos e o lançamento de seu novo disco mais de um ano para tentar livrar o Terceiro Mundo de dívidas que comprometem seu crescimento, para dar novo ânimo aos pobres e a restaurar a igualdade e a justiça no mundo.

E ele diz que não é um bom exemplo de cristão.

Jesus não disse que os bodes fumavam, bebiam ou falavam muitos palavrões. Ele disse que eles não se envolveram em prol das mudanças nas condições de vida de marginalizados ao alimentá-los quando estavam com fome, ou visitá-los na prisão. Estas eram as questões do Reino de Deus.

Quando se trata do dilema dos complexos de culpa de católicos e protestantes, é necessário lembrar que Bono tem ambas as heranças e, ao mesmo tempo, nenhuma delas. Ele tem falado de modo consistente sobre como despreza a religião, mas é um grande discípulo de Cristo. Para Bono, The Edge e Larry, o Deus que encontraram e com o qual têm caminhado em sua maravilhosa estrada é um Deus maior de que a igreja ou que as fronteiras religiosas. Eles O descobriram fora das camisas-de-força da religião tradicional e têm continuado a enxergá-lo como um Deus cada vez maior.

Trecho de Walk On – A Jornada Espiritual do U2 – págs. 68-70 – Esteve Stockman – W4 Editora

sábado, 10 de julho de 2010

Para o quê deve servir um livro


Precisamos de livros que nos afetem como um desastre, que nos angustiem profundamente, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, como ser banidos para florestas distantes de todos, como um suicídio. Um livro tem que ser o machado para o mar congelado dentro de nós. - Franz Kafka

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Acabei de ler "A Metamorfose" de Franz Kafka...


“Propôs-lhes então uma parábola, dizendo: O campo de um homem rico produzira com abundância; e ele arrazoava consigo, dizendo: Que farei? Pois não tenho onde recolher os meus frutos. Disse então: Farei isto: derribarei os meus celeiros e edificarei outros maiores, e ali recolherei todos os meus cereais e os meus bens; e direi à minha alma: Alma, tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te. Mas Deus lhe disse: Insensato, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Assim é aquele que para si ajunta tesouros, e não é rico para com Deus".Lucas 12:16-21

Estou em estado de choque. Acabei de ler A Metamorfose de Franz Kafka...

Imagine você, ser humano em domínio pleno de suas faculdades mentais, boa saúde e aparência, cidadão respeitável, familiar, próspero ir dormir tranquilamente e acordar transformado em um inseto horrendo?

Sua surpresa ao descobrir que você não é mais você, tendo se transformado em uma aberração aos seus olhos e aos olhos de seus amados? Imagine sua vida dando uma guinada de 180 graus, fazendo com que tudo aquilo que você antes tinha total liberdade e habilidade para fazer agora se torna praticamente impossível?

Seu corpo mudou, suas percepções também. Levanta-se diante de você uma imensidão de impossibilidades para atividades corriqueiras. Fora a aversão que, com o passar do tempo, torna-se em piedade. Você vira um peso para todos os que te cercam. No início os mais amorosos lutarão contra a repulsa e tentarão de ajudar. Sem saber exatamente como cuidar de você, farão de tudo para suprir suas necessidades básicas.

Outros acharão que você se bestializou não somente por fora, mas também por dentro. Só que você continua mantendo a mesma essência, só que não consegue exteriorizá-la devido a sua situação. Tratarão-te com ódio e rancor, pois inconscientemente te cobrarão por você não ser mais o mesmo de antes. Quem te autorizou a ser outro? Como você se permitiu chegar ao estado que se encontra no momento? Quanto tempo isso tudo vai durar?

Só que eles não sabem que você está lá, sua alma é a mesma, seu cérebro continua funcionando, você continua entendendo tudo o que se passa ao redor. Tudo o que estão falando com você ou de você está entrando dentro de você e te machucando. Como seria bom que aquilo que você se transformou fosse apenas passageiro! Mas com o tempo você é obrigado a se adaptar à sua nova situação.

Não adianta tentar falar, ninguém vai te entender. Não adianta lutar contra os fatos, você não tem forças para mudar a situação. A triste alternativa é se render, permitir se transformar por dentro naquilo que você agora é por fora. Assim, você vai de encontro à necessidade inconsciente daqueles que não querem olhar mais para o seu exterior, tendo a obrigação de tentar ver quem você realmente sempre foi.

O processo de bestialização avança, você se entregou à sua nova natureza. Pronto, todos aqueles que, em respeito a quem você foi, aceitaram sua mudança, agora podem ficar livres da responsabilidade de te amar. Agora você é um intruso, motivo de vergonha, um peso morto que ninguém mais quer carregar. Começam a te agredir, você perde as forças e se entrega aos fatos: Você agora é uma aberração.

Pensa em fugir, mas se encontra ferido e debilitado. Ferido por aqueles que antes de amavam. Os outros não importam. Somente seus amados tem o poder de te ferir como você se encontra atualmente. Entrega os pontos. Se recusa a viver, deixa de lado as necessidades básicas de higiene, saúde, alimentação. Se eu sou o que os meus amados dizem que sou, não vale a pena mais viver.

As feridas abertas agora te apodrecem. Você cambaleia, agoniza e morre. Todos agora estão livres para dar andamento à vida. Você se torna uma vaga lembrança, um sonho ruim. Mas acabou. Todos estão aliviados.

Deve ser isso o que sentem todos aqueles nossos amados que, por um acaso do destino, hoje se encontram em uma UTI, vivendo em coma vegetativa, ou tetraplégico em uma cama, amputado, cego, louco ou - apenas - desempregado, sentindo que se tornou um peso para a família...

Que nós, os que estamos “perfeitos”, sejamos alvo da graça e misericórdia do Pai. Que recebamos dEle amor, sabedoria e discernimento para lidar com todos aqueles que se transformaram naquilo que nenhum de nós gostaríamos de nos transformar. Que guardemos em nossos corações as palavras de alerta do Senhor a João à Igreja de Laodicéia:

“Porquanto dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um coitado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; aconselho-te que de mim compres ouro refinado no fogo, para que te enriqueças; e vestes brancas, para que te vistas, e não seja manifesta a vergonha da tua nudez; e colírio, a fim de ungires os teus olhos, para que vejas”. – Apocalipse 3:17-18

quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Evangelho da GRAÇA, segundo Marméladov


Quis encher o copo, mas a garrafa já estava vazia.

- Por que te lastimar? Bradou o dono da tasca, que apareceu novamente com dois homens.

Gargalhadas misturadas a impropérios estouravam no salão. Eram os ouvintes do funcionário que riam e zombavam. Os demais, que não o tinham ouvido, juntaram-se aos outros apenas para ver sua cara.

- Lastimar-me? É por que lastimarão eles – gritou de repente Marmeládov, levantando-se , agitando os braços, exaltado como se não ouvisse senão estas palavras. – “Por que me lastimar?”, disseste. Sim, o caso não é para lastimar, é preciso crucificar-me, pregar-me numa cruz e não me lastimar. Crucifique-me, pois, juiz, faça-o e, crucificando-me, tenha dó do sacrificado. Então eu mesmo superarei o próprio suplício porque não é de alegria que tenho sede, mas de dor e de lágrimas.

Acreditas, porventura, vendeiro, que tua meia garrafa me trouxe prazer? É a dor, a dor que procuro no fundo destes frascos, a dor e as lágrimas. Encontrei-as e sorvi-as. Porém não precisaremos apiedar-nos porque Aquele que teve piedade de todos os homens, Aquele que compreendeu, o Único e nosso primeiro julgador, voltará no dia do Juízo e perguntará: “Onde está a virgem que se sacrificou por uma madrasta cruel e tísica, por crianças que não são suas irmãs? Onde está a filha que se apiedou de seu pai terrestre e não voltou a face, horrorizada, a esse bêbado crapuloso?”

Ele lhe dirá: “Vem. Já te perdoei uma vez... perdoei uma vez... E, agora, que todos os teus pecados sejam remidos, porque muito amaste...” . E Ele perdoará a minha Sônia. Ele a perdoará, eu sei que Ele a perdoará... Eu senti, há pouco, em meu coração, quando estive em sua casa. Todos serão julgados por Ele, os bons e os maus, os sábios e os humildes, e nós ouviremos o Seu Verbo: “Aproximai”, dirá Ele, “aproximai também os bêbados, as criaturas fracas e modestas”. Avançaremos todos, sem temor, e pararemos diante d’Ele, que dirá: “Sois porcos, tendes a aparência do animal, trazei sua marca, mas vinde também”.

Então, para Ele se voltarão os sensatos e sábios e eles exclamarão: “Senhor, por que recebeis aqueles outros?” E Ele lhes dirá: “Eu os recebo, ó sensatos, eu os recebo, ó sábios, porque nenhum deles se julgou digno dessa graça. E Ele nos estenderá seus braços divinos e nós nos precipitaremos para eles... E nos desfaremos em lágrimas. E compreenderemos tudo... Então, compreenderemos tudo... E todos compreenderão... Ekaterína Ivánovna também compreenderá... Senhor, que o Teu Reino não tarde mais!

Deixou-se cair no banco, esgotado, sem olhar para ninguém, como se tivesse esquecido todos que o cercavam, na profunda meditação que o absorvia. Tais palavras produziram certa impressão. O silêncio imperou, um momento, depois os risos estouraram maiores ainda, misturados às imprecações:

- Boni...to!

- Mentiu demais!

- Burocrata!

- Vamo-nos, senhor, exclamou Marmeládov, de súbito, levantando a cabeça e dirigindo-se a Raskólnikov...

Trecho do livro Crime e CastigoFíodor Dostoiévski – págs 38/39 – Clássicos Abril Coleções