...Como saber , no entanto, se um ferimento fatal foi causado deliberada ou acidentalmente? O livro de Deuteronômio (Deut. 4:42) diz que se a pessoa que sofreu o ferimento não tiver hostilizado a outra nos dois ou três dias anteriores, pode-se assumir que foi um acidente.
Comentando este versículo, os sábios do Talmúd oferecem um enfoque psicológico fascinante. Dizem que a duração de uma querela, na vida normal, é de dois ou três dias. Se uma pessoa o fere ou o ofende, você tem o ‘direito’ de ficar zangado com ela durante este tempo (estamos aqui falando de discussões rotineiras e de mal entendidos, não de ofensas maiores). Se os sentimentos de amargura se estendem pelo quarto dia é porque você está querendo prolongá-los. Você está nutrindo a mágoa, mantendo-a artificialmente, em vez de deixá-la morrer de morte natural.
Deve haver alguma satisfação emocional em colocar-se no papel de vítima, mas essa é uma má idéia por duas razões. Primeiro, afasta você da pessoa de quem você deveria estar perto (E se, se tornar um hábito, como freqüentemente acontece, afasta você de muitas pessoas de quem você deveria estar perto). E, segundo, você se acostuma a se ver no papel de vítima, desamparada, passiva, sentindo-se a presa dos outros. Vale a pena esse sentimento vazio de superioridade moral que o faz ser visto dessa maneira?
O conselheiro pastoral David Norris diz o seguinte: “O perdão envolve um esvaziamento não só da energia negativa inerente à ofensa, mas também dos significados que damos a ela, como resultado dessa e de outras ofensas semelhantes pela vida afora”. A “energia negativa” a que Norris se refere é a sensação de amargura e ressentimento que carregamos conosco quando nos lembramos de como alguém nos magoou.
Quando tentei aconselhar uma divorciada que ainda fervia de raiva ao falar do marido que a deixara há anos por outra mulher, e que atrasava o pagamento da pensão das crianças, ela me perguntou, “Como pode pretender que eu lhe perdoe, depois de tudo o que ele fez a mim e às crianças?", eu lhe respondi: "Não estou pedindo que o perdoe por achar que o que ele fez não foi assim tão terrível; foi, sim, terrível. Estou sugerindo que você o perdoe porque ele não merece ter este poder de transformar você numa pessoa amarga e ressentida. Quando ele se foi, perdeu o direito de ocupar a sua vida e a sua mente da maneira como você está deixando que ele faça. Que você tenha raiva dele não incomoda a ele, mas fere a você. Está transformando-a em alguém que você não quer realmente ser. Afrouxe essa raiva, não por causa dele – provavelmente ele não o merece – mas por sua causa, de forma que você possa deixar emergir o seu verdadeiro eu”. E quando a energia negativa nos distancia de alguém com quem queremos estar juntos – um marido ou uma mulher, um irmão ou uma irmã, um amigo chegado que nos desapontou – é muito mais importante que aprendamos a descarregá-la.
Pelos “significados que a ela damos”, Norris se refere aos sentimentos de não valer nada, que nos vêm quando alguém que amamos nos maltratou ou nos deixou tristes. Essas ofensas nos tocam tão profundamente não apenas porque estão erradas intrínseca ou extrinsecamente, mas porque elas nos atingem onde somos mais vulneráveis. Tocam nosso medo de que, afinal de contas, não sejamos assim tão merecedores de amor. Quanto mais nutrirmos uma mágoa, nos dizendo: “Aquela pessoa não se importa com meus sentimentos”, mais repetimos a mensagem em nossa mente: “Meus sentimentos não devem ter importância”. Quando perdoamos, quando chegamos a encarar o que alguém nos fez não como resultado de maldade ou de pouco caso com nossos sentimentos, mas como o resultado da fraqueza, da impaciência e da imperfeição humanas, não apenas libertamos o outro do papel de vilão; nos libertamos do papel de vítima.
A colunista Linda Weltner, do Boston Globe, conta uma história ilustrativa. Ela recorda ter se sentado num parque para olhar as crianças brincando. Duas crianças começaram a discutir e uma disse à outra; “Eu te odeio, nunca mais vou brincar com você!” Por alguns minutos elas brincaram separadamente e logo estavam de volta, partilhando os brinquedos uma com a outra. A Sra. Weltner comentou com a outra mãe, “Como as crianças podem fazer isso? Como conseguem estar no auge da fúria uma com a outra num minuto e no minuto seguinte serem as melhores amigas?” A outra mãe responde, “É fácil: Elas preferem ser felizes a ter razão”.
Trecho do capítulo cinco do livro "O Quanto é Preciso ser Bom?" - Rabino Harold S. Kushner - págs 91, 92 e 93 - Editora Exodus

















