
Eu já disse em outros posts que quando eu era criança eu era muito, muito bundão. Antes de deitar enfiava as beiradas do meu cobertor por baixo do colchão, deixando-o blindado, à prova dos monstros que habitavam embaixo de minha cama. Se me desse vontade de fazer xixi à noite eu preferia fazer na cama e tomar uma surra de minha mãe do que arriscar andar em território inimigo.
A forte impressão da presença maligna era quase tangível. Engraçado como quando somos crianças, nosso medo é tão grande que quase materializamos nossos monstros.
Numa noite qualquer fui deitar como de costume, protegido pela minha blindagem de cobertor. Apesar do calor, adormeci. Sempre tive muitos sonhos idiotas, mas naquela noite tive um pesadelo que me traumatizou.
Estava na rua de casa, soltando pipa. O vento soprava em direção a rua da feira, a melhor direção para soltar pipa perto de minha casa, pois era onde menos tinha fios de eletricidade. Vários pipas no ar, estava muito divertido. Laçávamos, cortávamos as linhas dos outros até que comecei notar que algo estranho estava acontecendo. Subitamente o vento começou a soprar em várias direções, e as pipas se esbarravam umas nas outras. Achei super bacana o vento estar soprando em várias direções, nunca tinha visto nada como aquilo. Só que, de repente, o céu escureceu e começou a trovejar muito.
Entrei em desespero e larguei a linha, tentando correr. Vários garotos correram para a Barraquinha, a lojinha de doces de um senhor que morava perto de minha casa. Quando alcancei a porta, a mesma se fechou em minha cara. Os trovões ficaram mais fortes e começou a chover muito. Eu estava desesperado. Quando decidi correr para minha casa apareceu diante de mim o Mago Merlin (eu viajo muito, já falei), com aquele chapéu pontudo, cheio de estrelas.
Ele se aproximou de mim e disse: “Vou te enterrar aqui”. Tentei correr, mas não consegui. Comecei a me arrastar em direção a porta da minha casa, mas me senti amarrado. Neste momento do pesadelo comecei a ficar naquele estado de ainda estar dormindo, mas começando a acordar. Chorava e soluçava muito, lutando com todas as forças por minha vida.
O bruxo se aproximou de mim e me tocou. Dei um grito e acordei, todo suado, com dores no corpo. A lembrança deste pesadelo me acompanhou por toda minha vida. No início me gerava muito medo, até o dia que cresci e, finalmente, conheci o Senhor.
Pode ser bobo para alguns, mas como tenho lembranças vívidas deste pesadelo, acabei tirando dele algumas lições...
A lojinha de doces era do “Seu Benedito”, um cristão que vivia falando de Deus com os meninos que freqüentava sua lojinha. Eu era um dos que não dava muito valor, queria apenas brincar. Ele ficava enchendo o saco com aquelas coisas da Bíblia. Já tinha muito trabalho em estudar para a primeira comunhão. Tinha que decorar rezas e trechos da missa e achava tudo ligado a Deus um saco.
Soltar pipa era para mim era uma das coisas que mais gostava de fazer. Esquecia de tudo, só pensava em me divertir. Como não ouvia o que o Seu Benedito me falava, não dei a devida importância à mudança súbita da direção do vento. Se eu o ouvisse, possivelmente poderia ter associado ao que está escrito em
Mateus 24:29:
“Logo depois da tribulação daqueles dias, escurecerá o sol, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu e os poderes dos céus serão abalados”. Estava vendo claramente que algo fora do normal estava acontecendo, mas por não ter conhecimento da Palavra apenas achei diferente, legal.
Quando escureceu tudo quis correr e me abrigar na Barraquinha, só que era tarde demais. Todos entraram e eu fiquei do lado de fora. O bruxo que apareceu era o meu maior temor. Em meu sonho, ele representava o dia do Juízo. E eu seria enterrado, pois nunca tinha dado ouvidos a Deus. Tentava fugir mas no sonho eu já estava julgado. Por isso não conseguia correr, meus pecados me aprisionavam e eu não consegui alcançar nem o portão da casa dos meus pais.
Graças a Deus que no sonho não cheguei a ser enterrado. Acordei antes, suado e chorando, a tempo de sempre me lembrar deste sonho e saber que devo estar atento a tudo o que não é natural. Pode ser um sinal de Deus que não pode ser ignorado.
Bobeira de criança? Talvez. Para mim porém, foi muito forte.