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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A visita...


Semana passada, resolvi acompanhar minha amiga em uma visita a sua irmã, internada no Hospital Psiquiátrico Bela Vista.


Chegamos lá às duas da tarde e já estávamos sendo aguardadas ansiosamente pela interna. Fomos até seu quarto guardar o que havíamos levado: Roupas, biscoitos, sucos, queijo, frutas e cigarros.


Lá conheci uma cuidadora de idosos que lá se encontra cuidando de uma senhora a mais de 21 anos. Ela mostrou-me suas mãos com marcas e cicatrizes, geradas por beliscões, fruto da agressividade da idosa. Hoje a interna já se encontra menos agressiva, devido à debilidade da idade. A cuidadora disse-me que, depois de 21 anos, trabalha não mais pelo dinheiro e sim pelo amor pela senhora.


Lá fiquei sabendo de uma médica com especialidade em psiquiatria que estava internada a 3 anos. Sua mãe foi visitá-la. A idade da mãe era de 89 anos. Contaram-me que a médica internada vivia dizendo que sua mãe tinha um amante que, no caso, era o próprio irmão da médica. A mãe comentou: "Estou com 89 anos e ainda tenho que ouvir que meu filho é meu amante...”


Vi de longe as duas conversando e comendo seus lanches. Pude sentir quanto amor havia ali, principalmente por parte da mãe (naquela situação, eu acredito que a filha estava longe de entender o que é o amor).


Voltando para a irmã de minha amiga, fomos sentar na área verde do Hospital, onde havia muitas árvores e alguns bancos. Senti o sol batendo em meu rosto, coisa gostosa de sentir... Digo isso pois, ao entrar em um daqueles quartos, vi que eles eram abafados, com pouca luminosidade e ventilação. Sentir o sol no pátio foi uma sensação maravilhosa.


Começamos a conversar um pouco. A irmã de minha amiga está a mais de 15 anos vivendo alienada, após romper um namoro quando tinha 17 anos. Sua idade mental agora é de uma criança de 5 a 6 anos. Durante a conversa sua mãe começou a folhear uma revista que havia levado para a filha. Esta se aproximou da mãe e começou a falar:


- Mamãe, mamãe, compra este sapato pra mim mamãe! Compra mamãe, ele tem salto e é vermelho!


- Mamãe, mamãe, compra este vestido pra mim mamãe, compra pra mim!


- Mamãe, mamãe, compra este creme pra mim mamãe, compra pra eu passar na minha pele mamãe!


Ela também mostrava que conhecia de carros caros e outras coisas. Ela gosta do que é bom...


Entre um cigarro e outro, ela pediu para a mãe comprar um perfume caro, um walkman para ficar ouvindo música, um monte de outras coisas, tudo isso não se esquecendo da frase repetitiva: “compra pra mim mamãe, compra pra mim mamãe!”...


Ao surgir outra interna com uma bituca de cigarro na mão ela disse:


- Mamãe, esta preta machucou minha mão e pegou meu cigarro!


Nisso, a outra interna se aproximou e pediu para ela acender sua bituca. A irmã de minha amiga continuou a repetir que ela a tinha queimado, ao mesmo tempo que acendia sua bituca.


Ali naquele hospital encontram-se conveniados e aqueles que vão para a ala pública, homens e mulheres, todos juntos. Pude ver o descaso que eles são tratados. Numa situação como essa eles precisam estar separados; ala masculina e ala feminina.


Pude conhecer jovens bonitas que estavam ali por situações diversas, pressões da vida que não conseguiram suportar.


Conheci também um senhor que trabalha lá a 47 anos. Mesmo aposentado, ele não largou o cargo. Pude ver uma interna que se encontrava muito agressiva, falando palavrões. Logo em seguida, ela foi até este senhor e o abraçou como se ele fosse um pai, um irmão. Aquele senhor, assim como a ajudadora de idosos que falei antes, já não trabalhavam por dinheiro; trabalhavam por amor. Fiquei muito sensibilizada com a cena...


No final da visita, próximo das 15:40h, a irmã de minha amiga ficava repetindo:


- Vai embora mamãe, vai embora mamãe, vai mamãe, vai embora!


Triste, desanimada e depressiva, sua mãe se despediu e saímos de lá com o coração partido. Certamente, ela gostaria de estar saindo trazendo sua filha para casa...


Para mim formam momentos intensos. Pude orar e falar de Deus com alguns. Apesar do pouco tempo lá, valeu muito a pena a visita. Em poucas horas, senti que cresci um pouquinho humana e espiritualmente...

Reações:

5 comentários:

  1. Puts ... é complicado ... a mente humana é frágil como um cristal, ninguem escapa disso

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  2. Marcos, meu querido...

    Quando minha mulher falou sobre o que rolou nesta visita eu disse: Você tem que escrever sobre isso!

    O que mais impressionou de tudo o que ela contou foi sobre a médica psiquiatra que "passou pro outro lado"...

    Cara, o limite é muito sutil, tenho que tomar cuidado!!!

    Abraço forte!

    JC

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  3. Cilene, menina, gostei de ver, heim?!
    Você já chega dando um banho gelado na nossa arrogância nos colocando no nosso devido lugar.
    Seu texto é denso levando-nos a refletir sobre como somos todos iguais diante de Deus.
    Veja a ironia da insanidade da própria médica e o exemplo da cuidadora!
    Caramba! É assim a vida cá fora, também. A gente se coloca em nível superior usando parâmetros que nós mesmos criamos conforme nossos pseudo-valores e nossa tola vaidade na tentativa de mascarar a nossa própria fragilidade.
    Quão tolos somos! Mal sabemos que aqueles pequeninos lá é que estão nos braços do Pai.
    E, sem qualquer demagogia, sinceramente eu fico muito feliz em ver que você conseguiu passar essa experiência incrível não apenas para seu marido como para todos aqueles que lerem esse relato com o coração despido dos falsos poderes.
    Seja bem vinda, e que Deus te abençõe mais e mais com reflexões assim. Precisamos mais de textos assim para deixarmos a pompa e cairmos do nosso cavalo com a cara na terra.
    Obrigada pela bela lição!
    Beijos proceis,
    R.

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  4. É mesmo triste. Mas é bom para enxergarmos quão pouco fazemos efetivamente para o próximo, aquele que tanto necessita.
    Confesso que não consigo compreender a loucura, a insanidade. Parece que há momentos em que a mente prefere se alienar, fugir, abster-se da racionalidade. Muitas vezes eu me pergunto (sem obter a resposta) se é possível a um cristão cair em tal estado...

    Cuidado com esse TOC meu camarada João Carlos!

    Basta rodear apartamentos e outras cositas más (hehehe).

    Ricardo.

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  5. Se liga Ricardo!!!

    Quem nunca contou degraus que atire a primeira pedra!

    E pode atirar quantas pedras quiser, eu contarei todas!

    Abraço forte meuquerido irmão!!!!!

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Anônimo, eu não sei quem é você, mas o Senhor te conhece muito bem. Sendo assim, pense duas vezes antes de utilizar este espaço LIVRE (poderia bloquear comentários de anônimos mas não o faço por convicção pessoal e direção espiritual) antes de ofender quem quer que seja. Estou aberto para discutimos idéias sem agredir NINGUÉM ok? - Na dúvida, leia mil vezes Romanos 14, até ficar encharcado com a Verdade sobre este assunto...