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quarta-feira, 2 de junho de 2010

O Evangelho da GRAÇA, segundo Marméladov


Quis encher o copo, mas a garrafa já estava vazia.

- Por que te lastimar? Bradou o dono da tasca, que apareceu novamente com dois homens.

Gargalhadas misturadas a impropérios estouravam no salão. Eram os ouvintes do funcionário que riam e zombavam. Os demais, que não o tinham ouvido, juntaram-se aos outros apenas para ver sua cara.

- Lastimar-me? É por que lastimarão eles – gritou de repente Marmeládov, levantando-se , agitando os braços, exaltado como se não ouvisse senão estas palavras. – “Por que me lastimar?”, disseste. Sim, o caso não é para lastimar, é preciso crucificar-me, pregar-me numa cruz e não me lastimar. Crucifique-me, pois, juiz, faça-o e, crucificando-me, tenha dó do sacrificado. Então eu mesmo superarei o próprio suplício porque não é de alegria que tenho sede, mas de dor e de lágrimas.

Acreditas, porventura, vendeiro, que tua meia garrafa me trouxe prazer? É a dor, a dor que procuro no fundo destes frascos, a dor e as lágrimas. Encontrei-as e sorvi-as. Porém não precisaremos apiedar-nos porque Aquele que teve piedade de todos os homens, Aquele que compreendeu, o Único e nosso primeiro julgador, voltará no dia do Juízo e perguntará: “Onde está a virgem que se sacrificou por uma madrasta cruel e tísica, por crianças que não são suas irmãs? Onde está a filha que se apiedou de seu pai terrestre e não voltou a face, horrorizada, a esse bêbado crapuloso?”

Ele lhe dirá: “Vem. Já te perdoei uma vez... perdoei uma vez... E, agora, que todos os teus pecados sejam remidos, porque muito amaste...” . E Ele perdoará a minha Sônia. Ele a perdoará, eu sei que Ele a perdoará... Eu senti, há pouco, em meu coração, quando estive em sua casa. Todos serão julgados por Ele, os bons e os maus, os sábios e os humildes, e nós ouviremos o Seu Verbo: “Aproximai”, dirá Ele, “aproximai também os bêbados, as criaturas fracas e modestas”. Avançaremos todos, sem temor, e pararemos diante d’Ele, que dirá: “Sois porcos, tendes a aparência do animal, trazei sua marca, mas vinde também”.

Então, para Ele se voltarão os sensatos e sábios e eles exclamarão: “Senhor, por que recebeis aqueles outros?” E Ele lhes dirá: “Eu os recebo, ó sensatos, eu os recebo, ó sábios, porque nenhum deles se julgou digno dessa graça. E Ele nos estenderá seus braços divinos e nós nos precipitaremos para eles... E nos desfaremos em lágrimas. E compreenderemos tudo... Então, compreenderemos tudo... E todos compreenderão... Ekaterína Ivánovna também compreenderá... Senhor, que o Teu Reino não tarde mais!

Deixou-se cair no banco, esgotado, sem olhar para ninguém, como se tivesse esquecido todos que o cercavam, na profunda meditação que o absorvia. Tais palavras produziram certa impressão. O silêncio imperou, um momento, depois os risos estouraram maiores ainda, misturados às imprecações:

- Boni...to!

- Mentiu demais!

- Burocrata!

- Vamo-nos, senhor, exclamou Marmeládov, de súbito, levantando a cabeça e dirigindo-se a Raskólnikov...

Trecho do livro Crime e CastigoFíodor Dostoiévski – págs 38/39 – Clássicos Abril Coleções

Reações:

7 comentários:

  1. Grande João!

    Rapaz, me deu até vontade de reler "Crime e castigo"! Confesso que já não me recordava desse diálogo, retratando a verdadeira graça, favor imerecido que não se "alcança" por muito correr... Razão pela qual eu abomino esses legalismos tão em voga hoje (não comer isso, comer aquilo; não beber aquilo...). Engraçado que o próprio Paulo já asseverava sobre isso, mas os "crentes" (com exceções, claro) estão cegos.

    O problema é que eles querem merecer a graça, coitados! Sem contar que é uma verdadeira redundância! Como merecer algo que você ganha exatamente porque se não fosse assim não alcançaria?

    Grande abraço e apareça!

    Ricardo

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  2. Oi querido!

    Obrigado pela visita. Fico feliz em tê-lo feito ficar com vontade de ler este maravilhososo livro novamente.

    Estou também na minha segunda leitura. Um dia eu vou decorar, rrssrs

    Pois é, Graça é de graça mesmo e Dostoiévski sabia embuti-la no cotidiano de seus personagens como ninguém!

    Glória a Deus por isso!

    Ah, pode deixar, vou dar uma passada por ai...

    Abçs

    JC

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  3. João,

    Li esse livro em época que fazia Direito (Estudei por dois anos e larguei pelas circunstâncias há 16 anos, acho que já te falei...)

    Na ocasião,já muito fascinada pelo comportamento, pelas coisas da mente, no mergulhar fundo nesse caos - como o autor explora de forma literária como poucos da área da psiquê - me peguei mais no aspecto legal e nas "justificativas" para cada ato, (que no frigir dos ovos não deixa de ser a mesma coisa...)

    Mas eu não tenho dúvida que hoje eu analisaria de outra forma não apenas pela maturIDADE mas por uma lucidez mais ampla conferida por Deus, que certamente me enriqueceria muito mais do que quando li ainda, digamos, verdinha.

    Agora digo como o Ricardo, deu vontade de ler... Valeu pela remexida :) Sem falar que - como diz ele com propriedade -merecer graça vai além de pagar contas com a lei.

    Beijos,

    R.

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  4. Eh doidinha... rsrs

    Está naquele espírito de Jack, o estripador:

    "Vamos por partes"...

    É, tô numa fase boa de leitura tenho que aproveitar.

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Anônimo, eu não sei quem é você, mas o Senhor te conhece muito bem. Sendo assim, pense duas vezes antes de utilizar este espaço LIVRE (poderia bloquear comentários de anônimos mas não o faço por convicção pessoal e direção espiritual) antes de ofender quem quer que seja. Estou aberto para discutimos idéias sem agredir NINGUÉM ok? - Na dúvida, leia mil vezes Romanos 14, até ficar encharcado com a Verdade sobre este assunto...